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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

22
Set17

"Com Os Auscultadores Nos Ouvidos"

João Jesus e Luís Jesus

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 Fechou a janela do quarto muito depressa. 

Nevava lá fora e estava um frio de rachar. Ainda com arrepios, passou a mão pela camisola grossa e apertou-se um pouco, para tentar eliminar o frio.

Estava aborrecido. O dia não tinha corrido bem.

Era daqueles dias em que só lhe apetecia enroscar-se nos cobertores e ficar ali parado, sem ligar nenhuma ao mundo, durante horas a fio. E era isso que ia fazer!

Agarrou no seu walkman, quer dizer, o do seu pai. Fora ele que lho dera quando estava quase à beira da morte. Guardava-o com muito cuidado, era o seu bem mais precioso.

Colocou a sua cassete preferida no walkman e colocou os auscultadores nos seus ouvidos.

Atirou-se para a cama e enfiou-se dentro dela. Estava quente, confortável. Fechou os olhos e respirou fundo.

Sentia falta do pai. Sentia falta das longas conversas com ele. Sentia falta das cantorias no carro de manhã cedo.

Devagar, carregou no botão do play do walkman. Ouviu a cassete rodar e de repente, começou aquela música que ele conhecia tão bem.

Fechou os olhos e sorriu para o teto. Era bom lembrar-se dos bons momentos com o seu pai. 

Deixou cair uma lágrima em nome do seu pai e adormeceu ao ouvir a música.

 

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21
Set17

"Camada Gelada"

João Jesus e Luís Jesus

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 Os dedos fininhos envolviam o cântaro. Estava muito frio.

Ainda mal se via a luz do dia e já ela descia a vila, para ir até à fonte. Tinha de ser! Não havia outro remédio.

Via que havia gelo. Muito gelo sobre as plantas, a estrada e também sobre os seus dedos. Não os sentia, pois estavam congelados.

Descia a estrada com cuidado, para não escorregar. Da sua boca saíam grandes nuvens brancas. 

Faltavam cerca de duas horas para o ínicio da escola e ela ainda tinha de buscar água para a sua senhora, alimentar os animais e limpar a casa. Era muito trabalho para pouco tempo.

Mas ela tinha de fazer isso! Pois os seus pais dependiam do seu dinheiro, pois estavam velhos e doentes para trabalhar. 

Chegou à velha fonte e abriu a torneira. Não saiu nem gota. O bico estava congelado. 

Envolveu o dedo no seu casaco e tentou partir o gelo. Conseguiu ao fim de alguns segundos.

A água jorrava para o cântaro. Havia vapor em volta dela. Até a água gelada da nascente estava mais quente que aquela manhã! 

Quando o cântaro transbordava, desligou a torneira. 

As suas mãos congeladas agarraram o cântaro e com muito esforço, carregou o cântaro, começando outra vez a enorme caminhada até à casa da sua patroa.

Sem querer, o cântaro escorregou-lhe das mãos. Partiu-se no chão em mil pedaços. 

Rapidamente agarrou os cacos e atirou-os para o monte, não fosse aleijar alguém. Aquela distração iria ser recompensada em menos um dia de ordenado e uma sova em casa. Iria haver fome nesse dia.

A água que se entornara no chão, escorria pelo chão, mas grande parte dela já se havia congelado. 

Não valia a pena chorar, então levantou-se do chão e passou a mão no seu avental. 

Tinha uma longa caminhada até casa da patroa.

 

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20
Set17

"Meu Amor de Longe" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Desde muito cedo que dizia que, jamais, amaria à distância. O Amor é – essencialmente – presença constante entre duas vidas e não resulta à distância. Pensava eu… Mas a forma como eu olhava para o amor ia mudar drasticamente durante o programa Erasmus na faculdade.

 
Eu e as minhas melhores amigas tínhamos sido destacadas para a cidade de Lyon, em França, para participarmos numa campanha de voluntariado. Estávamos todas entusiasmadas, principalmente porque a Jennifer andava a tentar convencer-nos a fazermos uma escapadela a Paris a meio da semana. Sim, era uma tremenda loucura. Como é que iríamos fazê-lo sem darem pela nossa falta? Que desculpa iríamos dar? Confesso, estava aterrorizada; mas ao mesmo tempo não queria pensar muito no assunto – pelo menos para já -, queria aproveitar tudo ao máximo e divertir-me quando chegássemos a França logo veríamos.

 

Tiramos os passaportes, fizemos as malas e no dia marcado, apanhamos um táxi e rumamos ao aeroporto. Nenhuma de nós tinha pregado olho. Fomos a viagem toda a conversar, o que fez com que nem déssemos pelo tempo passar, quando trocávamos a última ideia estapafúrdia, o comandante avisou que íamos aterrar. Que excitação. Apanhamos um táxi e rumamos ao hotel, onde um representante da associação para a qual íamos trabalhar já nos esperava. Depois de pousarmos as bagagens no quarto e de descansarmos uns minutos, entramos numa carrinha e fomos à associação, para conhecermos a equipa onde iríamos trabalhar. 
 
Foi nessa equipa que conheci o Oliver: um voluntário francês, que já trabalhava na associação há cerca de dois anos, era responsável pelos jovens que vinham de fora realizar voluntariado: jovens como nós. Simpatizei de imediato com ele porque se mostrou deveras simpático e disponível e à medida que os dias foram passando criamos uma ligação especial. Por coincidência, era ele que estava acompanhar-nos; por isso, passávamos horas a conversar. Falou-me do seu forte desejo de ser voluntário e de ajudar os outros e de como tinha descoberto a associação. Eu também lhe contei sobre a minha enorme paixão pela aventura e adrenalina. Foi uma das melhores semanas da minha vida, eu e o Oliver já não nos separávamos para nada e quando nos apercebemos estávamos apaixonados um pelo outro.
 
Sabíamos que não nos devíamos apaixonar porque iríamos ter que nos separar e não sabíamos quando nos voltaríamos a ver, mas a vontade dos nossos corações falou mais alto. A felicidade constante passou a ser a minha melhor amiga, até que a vida nos ofereceu de presente a hora da despedida. O nosso estágio tinha chegado ao fim e eu vivia num alvoroço, tinha a cabeça num corropio ambulante; se por um lado tinha saudades de casa, por outro lado não queria deixar o meu amor para trás: o Oliver. Chorei sozinha de véspera e passei com o Oliver a última noite juntos.
 
O dia seguinte, amanheceu chuvoso. O Oliver quis acompanhar-nos sozinho ao aeroporto, durante o percurso na carrinha não conseguia tirar os olhos do espelho retrovisor queria estar constantemente em conexão com ele. Foi a despedida mais dura de sempre, achei que o nosso amor nem sequer ia durar porque vivíamos longe. Nos primeiros tempos senti imensa falta dele e dos laços que nos uniam, não sabia viver sem ele e ponderei mudar radicalmente de vida, emigrar para Lyon para estar junto dele. Percebi através da dor da distância, a força de um grande amor.

 

Por entre saudades, vazios, desencontros e escolhas incertas; o melhor do amor: a surpresa do Oliver. Quando menos esperei estava à minha espera na faculdade, não queria acreditar que tinha aproveitado as férias para vir a Portugal ver-me. Senti que era possível renovar um amor vivido a quilómetros de distância.
 
Na última noite do Oliver ao meu lado, fomos surpreendidos com uma inusitada canção, um fado da portuguesa “Raquel Tavares” intitulado: “Meu Amor de Longe”. Entrelacei os dedos nos dele e abracei-o.
 
Ele iria ser sempre o meu verdadeiro Amor de Longe.
 
 
Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"
19
Set17

"Apenas Gostamos das Leves Brisas"

João Jesus e Luís Jesus

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 Ele aparece nos dias mais frios e nos dias de menos calor. 

Todos o detestam um pouco, mas adoram-no em algumas épocas do ano. Chama-se vento e é um grande viajante.

Viaja pelo mundo inteiro. Ouve todas as conversas, histórias e segredos.

O vento está sempre constipado e gosta também de constipar os outros. É uma brincadeira sua, mas de muito mau gosto! Quando vê alguém desprevenido com o corpo molhado, eis que aparece e sopra uma grande rajada e a constipação aparece na outra pessoa.

Por vezes, na Primavera, passa pelas flores, pelas folhas das árvores e por todas as coisas perfumadas, para tentar sentir os seus cheiros agradáveis. Conhece todos os cheiros, embora que muito mal.

Quando está enervado de não gostarem muito dele, faz uma grande birra. Destrói coisas com a sua enorme força, agita as águas do mar e chia para todos o ouvirem. Mas ao fim de algum tempo, ganha juízo e pára com o seu chinfrim.

O vento também é maroto e quando está aborrecido, brinca com os cabelos das raparigas e com os brinquedos das crianças. 

Mas lá no fundo, ele adora aparecer no Verão, pois é quando todos o adoram, pois apenas gostam dele quando este sopra uma brisa nos dias quentes. Aí ele sente-se orgulhoso de si mesmo e para se sentir desejado, aparece poucas vezes para que chamem por ele.

 

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18
Set17

"Doentes" - Capítulo XII

João Jesus e Luís Jesus

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Finalmente, acabo de cobrir a cova com terra. 

Está feito.

- Vamos embora. - Diz a Rhonda num tom de súplica

Continuo calado, a olhar para onde o meu melhor amigo está morto, já enterrado.

- Vamos Dylan. Temos de sair daqui. - Diz a Heather

Dou uma última olhadela à campa e agarro na minha mochila.

- Vamos. - Digo

Começamos todos a andar. Já se começa a avistar alguns raios de sol por entre os pinheiros.

- Achas que conseguimos eliminá-los a todos? - Pergunta a Heather

- Quase de certeza que sim. - Informa o Russel - Eles nunca são mais que vinte em algum lado, por isso, acho que os matamos a todos.

A Rhonda decide ir na nossa frente e o Russel atrás, pois eles são melhores na defesa. Devemos estar a chegar ao centro da floresta.

- Será que as pegadas no trilho não podiam ser dos Infetados? - Pergunto furiosamente

- Não. Eles gostam mais de andar pelas árvores e só pousam no chão para caçar. - Diz a Rhonda

Estou extremamente furioso. Detesto tudo! 

De repente, num ataque de fúria, dou um pontapé ao que me aparece à frente.

- Calma Dylan! Estamos quase a chegar, de certeza! - Diz a Heather, colocando-me a mão no ombro

Tiro-lhe a mão do meu ombro. No fundo, foi ela a culpada da morte do Sam. A arma dela não estava a funcionar e por causa disso, ele morreu.

A Heather deve perceber o que eu estou a sentir e afasta-se um pouco, parecendo muito triste consigo mesma. Bem feito, acho eu.

- Acham que é ali que está a cura? - Pergunta a Rhonda, apontado para um lugar mais luminoso na floresta

Aproximo-me da Rhonda e olho para o ponto que ela aponta.

Vê-se uma pequena cabana de madeira e vê-se uma luz acesa dentro dela. De certeza é ali.

- É ali! Ali deve ser o esconderijo do velho, eu li no diário. - Diz a Heather muito feliz

Olho para ela. Se em vez de ler aquele diário em poucos minutos verifica-se a arma, o Sam estaria entre nós. Ela vê-me e fecha o seu sorriso.

- Então é melhor irmos já. - Declara o Russel - A noite deve estar a chegar e eu quero sair daqui.

- É melhor corrermos. - Digo

Corro na frente deles, o mais rápido que posso. Oiço os passos pesados da Rhonda atrás de mim.

Paro em frente da cabana. É ali que conseguirei a cura para a minha irmãzinha. E é hoje!

Espero pelo resto do pessoal e bato à porta. Ouve-se movimento dentro da casa.

- Quem é? - Diz uma voz rouca dentro da cabana

Oiço o barulho de chaves.

- Hum...Somos nós?! - Diz a Rhonda

O barulho para.

- E quem são vocês? - Diz o velho com uma risada

Reviro os olhos.

- Queremos apenas um pouco da cura. - Digo

O resto do meu grupo olha para mim surpreendido.

- Bonito! Agora não vai abrir de certeza! - Resmunga a Rhonda

De repente a porta abre-se. 

Um velho, baixinho, com barbas enormes olha para mim de cima a baixo. 

- Ok, podem entrar. - Diz ele devagarinho - Mas as armas ficam comigo.

Desconfiado entrego-lhe a arma. A Heather e o Russel fazem o mesmo, mas a Rhonda recusa-se.

- Se não deres a arma ficas cá fora. - Diz o velhote

A Rhonda resmunga e entrega a arma.

- Espera aí! - Grita o velho quando a Rhonda entra em casa - A faca que tens na meia.

A Rhonda vira-se surpreendida.

- Como soube que eu...

- São muitos anos do mesmo. - Diz ele, estendendo o mão para a Rhonda

A Rhonda bufa enervada e entrega a faca. O velho fecha a porta imediatamente.

- Então... - Diz ele olhando para nós - Querem a cura?

- Obviamente. - Digo-lhe

Ele olha para mim muito seriamente.

- Gosto de ti rapaz. - Diz ele de repente e começa a andar muito rapidamente até à divisão que deve ser a sala

A cabana parecia ser pequena por fora, mas por dentro é enorme. 

Ele está de volta de uma mesa enorme, toda suja e cheia de papéis e umas misturas estranhas.

- Que é isso? - Pergunta o Russel

- A cura. - Diz o velho

Espreito para uma mistela que ele está a mexer. 

- Isso é a cura? A grande cura? - Pergunta a Rhonda surpreendida - Isso parece um batido light!

O velho dá uma gargalhadazinha.

- Deixem-me explicar. - Diz ele - Aqui temos tudo o que o vírus detesta. Calor, silêncio, lentidão e claro, luz, muita luz.

- Mas isso não parece ter nada disso. - Digo

- Parece. - Diz o velho misteriosamente - A cura tem todas essas coisas. Deve ser servida muito quente, pois o vírus queima com o calor. A bebida fica cada vez mais grossa com o calor, impedindo que o som se oiça e que se engula muito pior, daí a lentidão. E a luz, porque a bebida deve ser servida num período muito luminoso, o meio-dia, pois depois de curado, o vírus não quer deixar a pessoa e precisa de luz para se afastar.

- Então é por isso que a velha aldeia estava posicionada num sítio de muito calor e luz! - Diz a Heather surpreendida

- Exatamente. Ali era a zona mais infetada, por isso era a que mais precisava da cura, então fizeram várias mudanças para a receberem. - Diz ele orgulhoso

O velho é mesmo muito inteligente!

- Mas espere aí. - Digo

Ele olha para mim.

- O vírus espalha-se com a mordidela dos Infetados, não é? - Pergunto

- Claro!

- Mas a minha irmã e os meus pais não foram mordidos. Como aconteceu? - Pergunto curioso

O velho olha para mim com dúvida na cara.

- Não faço a mínima ideia, meu rapaz. - Diz ele

- Mas eu faço. 

Olho para o Russel. Ele está com um sorriso malvado na cara.

- Fomos nós. - Diz ele

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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